Brasileiro revela que foi recrutado por meio de grupos em redes sociais como WhatsApp, Telegram e Instagram.


Goiano relata arrependimento após lutar na guerra da Ucrânia: “Nenhum dinheiro compensa o que passei”
O goiano Marcelo (nome fictício, usado para preservar a identidade), de 28 anos, contou ao site GQ que se arrependeu profundamente de ter se alistado para lutar na guerra da Ucrânia. Natural de Formosa (GO), ele embarcou motivado pela promessa de salários atrativos, mas acabou gastando cerca de R$ 16 mil com passagens, transporte e equipamentos. “Nenhum dinheiro vale o risco que corremos. Me arrependo profundamente”, afirmou.
Marcelo descobriu que sua esposa estava grávida do segundo filho apenas um dia antes da viagem, mas decidiu manter os planos, já que a passagem já estava comprada. Ele revelou que foi recrutado por grupos no WhatsApp, Telegram e Instagram, que ofereciam salários de até US$ 5 mil (cerca de R$ 25 mil) para voluntários estrangeiros.
Ao chegar ao país, foi incorporado inicialmente à 92ª Brigada de Assalto, sendo depois transferido para a 4ª Legião Nacional de Treinamento, unidade formada por soldados estrangeiros. Apesar de receber alimentação, precisou arcar com a compra de itens básicos de segurança, como coletes e porta-carregadores. “Quem queria proteção de qualidade tinha que gastar do próprio bolso”, relatou.
Além disso, enfrentou cobranças inesperadas, como contas de luz e gás do alojamento. “Nunca disseram que isso seria por nossa conta. Sabíamos que em guerra nada é fácil, mas isso deveria ser fornecido”, criticou.
Marcelo já tinha experiência militar — serviu nas Forças Armadas do Brasil entre 2016 e 2020 — e acreditava que poderia aplicar seus conhecimentos e ainda enviar dinheiro para a família. A realidade, porém, foi bem diferente. Com o passaporte e o celular retidos pelos superiores, passou semanas tentando autorização para voltar ao Brasil. Somente após descobrir que a esposa tinha uma gravidez de risco conseguiu negociar sua saída, o que levou três semanas.
O retorno foi arriscado: ele relata que se sentiu em cárcere até conseguir fugir, pegar um táxi e embarcar em Varsóvia, na Polônia. “Preferi arriscar sozinho do que confiar neles. Tive medo de morrer várias vezes, principalmente na fronteira”, lembrou.
O caso de Marcelo contrasta com o de outros brasileiros ainda presos ao conflito, como o jovem Lucas Felype Vieira Bueno, de 20 anos, que afirma não conseguir deixar a Ucrânia devido ao contrato assinado.
O recrutamento de brasileiros tem sido feito por páginas em português e grupos em redes sociais administrados por estrangeiros e até brasileiros. O alistamento é gratuito, mas o voluntário precisa custear a passagem de ida.
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil reforçou que recomenda aos cidadãos não aceitarem ofertas de alistamento, enquanto a Embaixada da Ucrânia afirma que os brasileiros ingressaram voluntariamente, com contratos assinados, e possuem os mesmos direitos que os soldados ucranianos.
Apesar da experiência traumática, Marcelo diz ter tirado uma lição:
“A guerra não é videogame, é vida real. Hoje sei o que realmente significa se arrepender de uma decisão.”

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